Wednesday, March 28, 2007

Melopeia

Abri suavemente, sem qualquer som, o tampo do piano de cauda que estava para ali abandonado naquela casa no meio de nenhures. Passei os dedos pelas teclas, tentando adivinhar que histórias e sentimentos teriam elas já cantado. Sacudi a intensa camada de pó sobre o pequeno banco almofadado e sentei-me, fechando os olhos e inspirando o mais fundo que o ar poeirento daquele sítio me permitia.
Deixei os meus dedos afundarem-se num primeiro acorde; menor, um tom triste e fúnebre. Sucedi-o com meia dúzia de notas tocadas levemente como um choro que desvanece na noite. Os dedos, pesados como o ar e o som que o enchia, caíam sobre as teclas como lágrimas esquecidas. Deixei-me afundar cada vez mais na crescente melancolia daquela melopeia chorosa, sem lágrimas que melhor pudessem cantar minha alma.
Seguindo a cadencia da musica encontrei-me a meio de um crescendo, elevando a voz daquele velho piano e da minha dor, lançando-me na loucura do desespero, cada nota gritando mais alto que a anterior. A minha alma berrava, e eu, embriagada, não sabia sequer que magoa era aquela que cantava. Os dedos dançavam fortemente sobre as teclas, a cabeça bailava de lado para lado e o coração parecia querer romper meu peito e manchar a sangue a melodia.
Bruscamente parei de tocar, fechei o tampo com força, o som ressoando pela casa vazia. Fugi daquele sítio.
"Não tenteis reproduzir os sentimentos de outrem. Não choreis em confessionário alheio"

Monday, March 26, 2007

Texto incoerente derivado das saudades

Não quis dramatizar os factos. Afinal, as coincidências abundam e imperam com grande tirania nos dias de hoje. Mas não consigo fechar os olhos á verdade; vi o Sol a desaparecer quando partiste.

Na verdade, e muito embora o desaparecimento tão repentino do Sol me tenha espantado bastante, não me surpreendeu que tenhas tal poder sobre a natureza. Sempre achei que eras assim, daquele género de pessoas que são muito mais importantes do que fazem sequer ideia. Se considerar o poder que tens sobre mim é fácil de aceitar que até o Sol se rebaixe perante a tua vontade.

Estou certa que algures entre as tuas inúmeras memórias perdidas estará a história da tua verdadeira ascendência, o teu nascimento como filho de algum Deus ou anjo, que te deixou o seu legado divino. Ou talvez toda essa tua magia seja apenas fruto do nosso destinado encontro. Talvez o Universo cante alegremente a beleza do nosso amor, se subjugue ao imenso encanto de um destino cumprido. Talvez esta fortuita conspiração do acaso nos tenha ligado de alguma forma ás tramas do mundo. De qualquer forma o Universo perdeu a sua grandiosidade assim que apareceste na minha vida. Há algo em ti muito maior, que o meu mundo parece estar cheio de ti.

Sei que corro o perigo de soar obcecada, mas a verdade é que já não sei viver sem ti.

Tuesday, March 20, 2007

Queimando fotos

Pego, totalmente ao calhas, numa fotografia de entre as muitas que tinha guardadas dentro de uma velha caixa de sapatos, enfeitada com desenhos que nela colei há anos já esquecidos. As fotografias ainda estão em bom estado, volta e meia vou lá mexer-lhes, como para ter a certeza que as memorias estão no sitio e não se tratou tudo de mais um dos meus estranhos e complexos sonhos.
A caixa, essa foi perdendo a cor com os anos e o sol. Parece-se comigo.

Trata-se de uma fotografia tirada numa visita de estudo qualquer - não estamos de uniforme - na qual devo ter cerca de 16 anos. Encontro-me entre alguns amigos (era essa a palavra?) e colegas (desta lembro-me bem). Suavemente aproximo a chama de tamanho médio do isqueiro ás extremidades da foto e observo como escurece e se dobra. A mesma foto, mas de contornos tão diferentes. É quase irónico, o poder de tão pequena chama, mas não estou para me debruçar sobre ironias ou filosofias. Estou apenas a queimar fotos. Não é nenhum ritual espiritual, não estou a fugir ao passado nem a tentar limpar a minha alma. Estou simplesmente a queimar fotos, como uma qualquer actriz de filme lamechas. Até as lágrimas ameaçam aparecer, de forma a melhor enganar o público.

O que fazer com estas cinzas? Não se pode dizer que cheirem muito bem, e estão para aqui a sujar-me o chão. Queimei a foto, já não a queria mais, mas parece que ainda vou ter de me ocupar do que resta dela. Que dores de cabeça que nos dão até as coisas que já se foram! Talvez faça bem ás plantas, já ouvi dizer isso das cinzas. Será que as cinzas de uma velha foto poderão ajudar algo a crescer? Parece-me estranho, mas daí a ciência e a vida e tudo isso são, em geral, estranhas.

Monday, March 19, 2007

Retorno

Encontrando-me de novo no meu enclausuro infernal de todas as semanas deparo-me com uma interessante manifestação deste grande amor que tomou de assalto o meu ser.

Encontro em mim uma força imensa para atravessar a tortuosa rotina dos dias sem ti, uma esperança quase cega, quase infantil, quase insana.

Existo apenas 3 dias por semana. Durante os restantes a minha alma deixa o meu corpo para sonhar.Com o corpo em piloto automático percorro mundos, dimensões, vidas, épocas, armagedões e génesis. E retorno apenas nos 3 dias em que eu, qual Perséfone, sou concedida a bênção de subir ao mundo e banhar-me na luz do sol que traz tua presença.

Retorno para te contar meus sonhos, minhas visões, minhas viagens imaginadas. Retorno para me alimentar do teu amor, beber de tua paixão. Retorno para te amar, para me entregar sem barreiras.


Retorno pois quero amar-te cada vez mais, cada dia mais, a cada batida deste (t/m)eu coração.